Religiões sem religiosidade

Imagem: freepik

Não encontrei frase mais adequada para iniciar a coluna do que o jargão teosófico traduzido por Madame Blavatsky (escritora russa, séc. XIX):

“Não há religião superior à verdade”

Esse texto NÃO tem o objetivo de uma especulação teológica, isto é, a respeito de Deus, mas sim da nossa relação com tudo que abrange o divino, e para não perdermos tempo em devaneios consensuais sobre o que é o termo verdade, definiremos como sendo aquilo que resta após desvendarmos (tirar os véus) a mentira e para alcançar o intuito planejado precisamos de total honestidade, em especial com nós mesmos.

___continua após publicidade___

Inúmeros fatores contribuem para a sustentação de um equívoco e o fundamental é a IGNÔRANCIA, que denota IGNORAR. Nós ignoramos as coisas, o que em última instância é o resultado da CRENÇA. Quem crê mata inevitavelmente a sua capacidade de duvidar, de indagar a existência. Um processo mecânico de defesa compreensivo, já que evita o gasto de energia. A pessoa questionadora vive na incerteza, procurando, incomodada, perdida e assim por diante. O inverso é a crendice que gera a sensação sedativa, de comodismo, amparo e tranquilidade, uma espécie de droga. Na crítica de Karl Marx (pensador alemão, séc. XIX) foi mencionado:

“A religião é o ópio do povo”

Se compreendermos as religiões do ponto de vista institucional, eu concordo que são as maiores fábricas de crentes do planeta. Elas NÃO possibilitam o desenvolvimento cognitivo. O buscador autêntico cedo ou tarde contestará os dogmas, tradições ou escrituras e nesse momento a sociedade o julgará, pois começou a pensar com a própria cabeça, o que de alguma maneira afeta o potencial (latente) de quem está na zona de conforto, incomodando-as. É semelhante à alegoria da caverna de Platão (filósofo grego, 429 a.C.), que em resumo conta a história de indivíduos que acorrentados desde o nascimento no fundo de uma caverna olham para parede, onde só enxergavam as sobras do que acontecia do lado exterior – reflexo de uma fogueira que permanecia acesa atrás deles. Quando um aprisionado conseguiu escapar e girou na direção do fogo e da entrada, a luz agrediu sua visão em consequência do tempo que passou no “escuro”. Depois de muito esforço e coragem ele prosseguiu o caminho até a saída e encontrou uma nova realidade. Ansiando dividir a experiência com os que permaneceram, retornou ao covil. Chegando lá, ninguém escutou suas considerações e o mataram (coincidentemente lembrou a história de Mansur Al-Hallaj, Sócrates, Jesus e tantos outros).

___continua após publicidade___

As organizações espirituais em geral são assassinas com luvas de pelica, visto que cogitar sempre foi levado no sentido herético, ofensivo para os representantes sacerdotais que vendem postulados imperativos e categóricos. Não querem que andemos com as próprias pernas porque jogaríamos fora as muletas. As religiões de forma indireta combatem a religiosidade, que é a capacidade interrogatória de busca pela verdade, de aprender com os tombos. O conhecimento a partir dos “erros” do vizinho é extremamente superficial e raso – é como falar da saudade sem nunca ter se apaixonado. Talvez na essência longínqua dos fundadores religiosos existiu o desinteresse da manipulação e do poder, todavia não é o que ocorre atualmente no jeitinho contemporâneo de viver.

___continua após publicidade___

Fomos aprendendo a nos relacionar com Alá, Deus, Olorum ou o nome que deseje como meros comerciantes. A fé se tornou um negócio em vez de um caso de amor natural. Rezamos, oramos, o que para mim não tem diferença (por mais que os sabidos exaltem os contrastes) quando precisamos de favores, inclusive a tão idolatrada gratidão é devida (em algum nível) aos ganhos, mesmo que seja das experiências obtidas pelas coisas que não deram “certo” ou de algo que não aconteceu da maneira que gostaríamos. Nossa linguagem de interação com o divino não tem sentido nem sentimento – é condicionada, habitual e de vez em quando obrigatória.

___continua após publicidade___

Anuncie aqui (14)99888-6911

A lógica é simples! Se realmente acredita em Deus e acha que ele está no controle de tudo através da sua onipotência, onipresença e onisciência, ou seja, que nenhuma folha cai em oposição à sua vontade, é IRRACIONAL pedir-lhe algo. Claro que estou me referindo às preces entendidas como pedidos. Mediante a essa análise as orações acabam sendo uma ofensa, porque subintende-se que o governador universal não sabe o que está fazendo ou que do seu modo egoísta e pequeno seria melhor. Ora bolas! O sensato a fazer para não atrapalhar é ficarmos em silêncio e constatar o milagre da vida. Além das súplicas serem um escambo na cara dura (eu faço isso e você me dá aquilo) também estorvamos o bom funcionamento cósmico.

Repare o quão somos malandros. Antes de iniciar um diálogo com Altíssimo a fim de obter uma graça, dizemos:

“- Oh pai todo poderoso! Grande criador, clemente e bondoso! Amado benfeitor!”

Percebe a estratégia? O suborno inconsciente que articulamos e incrementamos com adjetivos refinados para agradar o subornado? Você elogia e então pede, é uma ação automática pela sobrevivência. Repetimos com Deus o que fazemos com as pessoas. Veja bem! Não é um julgamento pejorativo, eu apenas estou tratando de assuntos delicados (porque mexe com o ego, a autoimagem, as máscaras etc.) com a máxima sinceridade e imparcialidade. Agora, se está recebendo com hostilidade é que no fundo houve identificação com minhas palavras, do contrário, seria equivalente à situação de chamá-lo de Ismael sendo que seu nome é Pedro. Você não daria bola ou acharia engraçado o engano.

Reflita!!!

| Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Jornal Biz. |

QUER FICAR BEM INFORMADO? Envie a mensagem “Quero notícias do Jornal Biz + (seu nome)” do seu WhatsApp para (14)99888-6911 e receba em primeira mão as notícias de Ourinhos e região.

CURTA O JORNAL BIZ NO FACEBOOK
Instagram @JornalBiz
Twitter @jornal_biz