O desafio de ser mulher e a paixão pelo voluntariado

Voluntárias do Projeto Mãos Solidárias, de Ourinhos

Quando o mês de março se aproxima as questões relacionadas à mulher tomam conta das reportagens e redes sociais. Percebemos que alguns avanços obtidos num passado não tão distante tornam-se frágeis em face de uma realidade que se transforma rapidamente. Se há pouco tempo o país foi capaz de eleger pela primeira vez uma mulher para ocupar o cargo mais alto da nação, hoje se constata um retrocesso que evidencia uma cultura que privilegia o poder masculino, que se expressa não só através do discurso, mas com atitudes bem mais violentas. Casos de feminicídio estampam quase todos os dias as páginas dos jornais, e para alguns setores da sociedade a mulher continua sendo um objeto submetido às vontades e determinações dos homens.

Casos de feminicídio aumentaram 44% de janeiro a agosto de 2019. | Foto: Grupo Mulher Independente

Matéria publicada no jornal El Pais destaca que só no estado de São Paulo, até agosto de 2019, houve um aumento de 44% dos casos de feminicídios. Segundo dados levantados pela plataforma Monitor da Violência do Portal G1, 1314 vítimas de violência foram mortas no Brasil no ano passado pelo simples fato de serem mulheres. O que choca ainda mais é que essa cultura é alimentada pelo discurso daqueles que deveriam zelar por uma politica pública de esclarecimento e proteção dos segmentos mais expostos à violência. Pelo contrário, o que se vê é a tentativa de impor uma moralidade duvidosa, embasada num discurso religioso fundamentalista, machista e preconceituoso.

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A despeito dessa realidade, as mulheres continuam se organizando e ocupando espaços em todos os setores. No mercado de trabalho, na política e à frente de movimentos sociais, as mulheres têm se destacado, conquistando sua autonomia. A presença da mulher é muito marcante também em um setor onde a presença feminina é maioria: o voluntariado.

Deisilene faz selfie em dia de confecção de máscaras do Projeto Mãos Solidárias. | Foto: redes sociais

É o caso da policial militar aposentada Deisilene Marques, que realiza um trabalho voluntário no projeto Mãos Solidárias, que acontece no Hospital do Câncer Dr. Monzillo: “Quando aposentei pensei em me ocupar com trabalho voluntário. O perfil do projeto chamou minha atenção e pedi para participar. Comecei ajudando na preparação do café da manhã que é oferecido aos pacientes e acompanhantes. Muita gente vem de fora, chegam cedo e passam todo o dia aqui.” O grupo também realiza um trabalho de confecção de máscaras para os pacientes que estão com a imunidade baixa em função do tratamento, ou que passaram por transplante. “Eu não costuro, só risco e corto as máscaras e entrego para as costureiras.  Aí a peça  é costurada, passam o elástico, embalam e juntamos um folheto com a informação de uso. Mandamos para as pessoas que manifestam interesse, e junto vai uma cartinha”, explica Deisilene.

Mãos Solidárias Ourinhos: Já são 15 mil peças enviadas para todo o país e até para o exterior.
Postagem em rede social.

Para as crianças o grupo produz máscaras personalizadas, contribuindo para amenizar o sofrimento causado pela doença e dificuldades do tratamento: “Temos feito máscaras personalizadas para crianças, com bordado de super-heróis, por exemplo.” Todos os produtos para o café da manhã, assim como o tecido para a confecção das máscaras, são obtidos através de doações. O projeto Mãos Solidárias foi criado por Marília Constante e Tatiana Albano Constante.  Cerca de 980 pacientes já foram cadastrados e receberam a máscara. Foram 15 mil peças enviadas para todo o país e até para o exterior.

Tatiana e Marília: idealizadoras do Mãos Solidárias em Ourinhos. | Foto: redes sociais

Além do café da manhã e das máscaras, as voluntárias também organizaram uma biblioteca móvel, utilizando um carrinho de supermercado, oferecendo leitura para pacientes e acompanhantes. “Esse projeto me fez um bem danado. Ouvir as histórias das pessoas mexeu muito comigo, dei mais valor à minha vida, criei laços com outras pessoas, fiz muitas amizades, preencho o meu tempo, é muito bom. O grupo tem cerca de 60 pessoas, cada um ajuda da forma que pode, estando presente ou fazendo doação. Dia 28 vamos fazer o nosso bingo no Salão da Recco, e novos voluntários são bem-vindos”, lembra Deisilene. Sobre o dia da mulher, Deisilene acredita que deve ser comemorado, mas sem apelo comercial: “É um dia para se lembrar do respeito, e que a mulher precisa ser ouvida. Ainda precisamos de um dia para lembrar isso, porque ainda estamos buscando novos caminhos e conquistas.”

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Outra mulher que se destaca pelo trabalho voluntário em Ourinhos é a professora Márcia de Jesus Pigosso Nunes. Márcia é coordenadora do Projeto Acolher, realizado na EMEF Jandira Lacerda Zanoni, no Jardim Itamaraty aos sábados de manhã, e que atende 130 crianças do bairro.  O projeto oferece oficinas de música e artes às crianças, além de orientações que estimulam as relações de sociabilidade, os cuidados com a saúde, o respeito e a convivência. “A escola Jandira Lacerda Zanoni foi escolhida pelo grupo que estava iniciando o projeto. Não interferi, mas vibrei com a escolha, pois eu já conhecia a comunidade, as pessoas, já havia trabalhado lá. Me identifiquei completamente com a proposta do projeto, principalmente porque  leva uma espiritualização, mas sem compromisso religioso”, conta Márcia.

A professora Márcia com alunos do projeto Acolher, durante entrega de presentes às vésperas do Natal de 2019.

O projeto não recebe recursos públicos e se mantém através de doações mensais e arrecadações obtidas em participações em festas, onde grupo se organiza na venda de pizzas: “Além dos valores morais que procuramos passar para as crianças, também  fazemos um trabalho social, de ajuda mesmo. Já começamos a campanha do agasalho deste ano. Arrecadamos e doamos para as crianças. O projeto é uma paixão.”

Projeto Acolher também oferece refeições para crianças e famílias participantes.

O trabalho voluntário exige dedicação e comprometimento. “É difícil conseguir voluntários, porque quem se dispõe precisa renunciar a alguma coisa. Estamos juntos todos os sábados de manhã, mas o trabalho não é só ali, existe a preparação do material, a coleta de doação, e quem participa faz de tudo”, explica Márcia, que conta ainda com a colaboração do marido, Reginaldo. Como as crianças estão matriculadas na escola onde o projeto funciona, existe uma interação com a direção: “A escola  nos dá o retorno de como as crianças que participam do projeto melhoram. Também já precisei acionar o Conselho Tutelar por causa de histórias familiares que as crianças contam.” Márcia diz que o desejo de todos é que a prefeitura doe um terreno no Jardim Itamaraty para a construção de uma sede própria.

Alguns dos voluntários do Projeto Acolher.

Márcia Pigosso acredita que seria muito bom se a sociedade não precisasse  de um dia específico para homenagear a mulher: “A mulher ainda não se empoderou. É um processo. Hoje vi uma moça com 31 anos no oitavo filho… sozinha! Muitas mulheres ainda não entenderam que podem fazer o seu caminho. Permanecem dependentes dos maridos, sofrendo violência e achando que precisam aceitar. Não é normal o esposo ser violento com a mulher e os filhos. É preciso reagir, as mulheres precisam quebrar o ciclo de violência que aprenderam em casa. Mas acho que as coisas estão melhorando.”

O projeto Mãos Solidárias acontece no Hospital do Câncer Dr. Monzillo. Quem quiser ajudar doando tecido e mantimentos, o posto de coleta é na loja Santa Felicidade, na Rua Souza Soutello. Para a confecção das máscaras é usado o tricoline 100% algodão. O Projeto Acolher é realizado aos sábados das 9 às 11h30 na EMEF Jandira Lacerda Zanoni, no Jardim Itamaraty.

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