Os caminhos da Cultura na história de Ourinhos

"Circo da Cultura Popular", projeto iniciado pela Diretoria de Cultura da Prefeitura de Ourinhos em 1993. | Foto: Marcelo Negrão

Um importante acontecimento marcou o dia 13 de dezembro de 1988 em Ourinhos. Como parte das comemorações dos 70 anos da cidade, foi inaugurado o Teatro Municipal Miguel Cury. Durante a administração do prefeito Esperidião Cury (1983-1988) a prefeitura adquiriu o prédio do antigo Cine Ourinhos, e após uma grande reforma o espaço se transformou em uma das melhores salas de espetáculos do interior do estado. O surgimento do Teatro Municipal atendeu aos anseios de vários grupos artísticos atuantes na cidade e inaugurou uma nova fase na vida cultural de Ourinhos.

O convite para a inauguração do Teatro Municipal de Ourinhos, assinado pelo ex-prefeito Esperidião Cury.

A primeira apresentação foi da Orquestra de Câmara do Conservatório Carlos Gomes de Campinas, e o maior destaque do programa de inauguração foi o espetáculo Quadrante, monólogo apresentado pelo ator Paulo Autran. Em 2018, no centenário da cidade, o Teatro Municipal Miguel Cury completa 30 anos.

Edição do Jornal da Divisa de 18 de dezembro de 1988 fala da inauguração do Teatro Municipal.




Convite para o espetáculo e notícia publicada no Jornal da Divisa de 21 de dezembro de 1988.

Se hoje temos que conviver com pensamentos que tentam desqualificar a importância da cultura, e que querem impor à produção artística valores contrários à liberdade de criação, é preciso lembrar que são as manifestações culturais que sempre identificam e valorizam uma comunidade. Em Ourinhos não é diferente, e durante muitos anos a população sentiu orgulho da qualidade da música, dança e teatro produzidas por seus conterrâneos.

Pensar, planejar e investir em cultura não é um fenômeno moderno. Basta lembrar as apresentações teatrais na Grécia antiga, do investimento dos poderosos que patrocinaram os grandes artistas no período medieval ou da ideia de cultura pública que se anunciou com a Revolução Francesa. Porém, somente no século 20 é que se procurou sistematizar o que seria na prática uma política pública de cultura.

Jornal A Voz do Povo de 10 de julho de 1937 informa sobre o início das atividades da banda municipal.

Em Ourinhos, a preocupação em investir em atividades culturais já estava presente, mesmo que de forma incipiente, desde as primeiras administrações. Prefeitos tinham consciência da importância política de manter e garantir as apresentações das bandas municipais na Praça Mello Peixoto, em eventos sociais ou religiosos. Com o objetivo de construir um local adequado paras as retretas da banda, foi inaugurado em 1927 o coreto da praça, que também servia de palco para outras apresentações artísticas.

Festa Junina na Praça Mello Peixoto, ano 1994.

Possuir uma biblioteca pública também estava entre os desejos dos prefeitos e conferia certo prestígio cultural para a cidade. A biblioteca pública sempre foi o equipamento cultural mais presente nas cidades brasileiras, embora, muitas vezes, se tratasse apenas de uma estante com livros amontoados, numa sala esquecida das prefeituras. Em Ourinhos, um decreto de 1941, assinado pelo então prefeito Horácio Soares, criava a biblioteca pública no municípioPorém, foram necessários mais 30 anos para que ela de fato existisse. Com um pequeno acervo, ela foi inaugurada em 1971, no mesmo prédio onde funcionava o Museu Municipal Histórico e Pedagógico de Ourinhos, na rua Nove de Julho.




É preciso lembrar que muito além dos incentivos governamentais, a vida cultural dos ourinhenses passava também pelas manifestações populares. Em uma cidade ainda pouco urbanizada, eram comuns as festas de caráter religioso realizadas nas áreas rurais, e a chegada de um circo na cidade era uma possibilidade única de diversão cultural.

A partir de 1985, com a criação do Ministério da Cultura e das secretarias estaduais de cultura, os municípios passaram a ter alguma preocupação em organizar a área. Muitas cidades criaram suas secretarias municipais de educação, com um departamento que se dedicava à área cultural, surgindo as primeiras estruturas administrativas voltadas à organização do setor.

Notícia do jornal Diário da Sorocabana de 4 de janeiro de 1968 fala sobre construção de um prédio para abrigar Teatro Municipal e Biblioteca.

Por muito tempo as tímidas atividades culturais na cidade costumavam ter a biblioteca pública como espaço e a banda municipal como principal atração artística. No início dos anos 1980, a cidade contava com atuação de grupos culturais independentes que promoviam ações culturais em praças ou ocupando os espaços disponíveis na época. Mesmo desativado, o Cine Ourinhos foi utilizado para apresentações teatrais, assim como o Grêmio Recreativo. A partir da inauguração do Teatro Municipal, em 1988, a administração pública começou a planejar eventos e um calendário cultural que pudesse auxiliar na formação de público, oferecendo lazer e entretenimento. O Departamento de Cultura criou então o Festival de Teatro Amador, evento anual que trazia gratuitamente espetáculos de teatro para a cidade, e foram organizadas diversas exposições de artes plásticas.

Na gestão do prefeito Claury Santos Alves da Silva (1993-1996) houve um salto de qualidade e organização nas ações culturais da cidade. Além da criação das Escolas Municipais de Música e Dança, teve início a construção do Centro Cultural.

Março de 1994. Prefeito Claury reúne em seu gabinete a equipe da Diretoria de Cultura, artistas, engenheiros e arquitetos. O motivo do encontro era a construção do Centro Cultural Tom Jobim.

A área próxima à estação ferroviária, núcleo inicial da cidade, passou por uma revitalização, com a instalação do Museu Municipal e a restauração de um conjunto de casas que abrigaram trabalhadores da ferrovia, transformando o local no Centro de Convivência, em frente ao lanchódromo, constituindo uma significativa ação de preservação do centro histórico da cidade.

O Centro de Convivência decorado para o Natal, em 2003.

Naquela época foi inaugurada também uma biblioteca na Vila Odilon, que posteriormente foi desativada,  e duas bibliotecas volantes circulavam pelos bairros, atendendo principalmente crianças e adolescentes. Outra iniciativa que marcou o período foi a instalação do Circo da Cultura Popular.

Apresentação do Circo da Cultura Popular no Jardim Anchieta, em 1994.

A prefeitura adquiriu uma lona de circo que percorria os bairros de Ourinhos, oferecendo oficinas de artes circenses e espetáculos que contavam com a participação de artistas formados no próprio projeto. A secretaria de Cultura, no entanto, foi criada somente em 2003, ano em que foi inaugurado o Centro de Centro Cultural Tom Jobim.

Apresentação do Circo da Cultura Popular, em 1995.

Apesar de terem acontecido ações em diversas áreas culturais na época, a descontinuidade na gestão de projetos impediu a consolidação de políticas públicas que trouxeram benefícios e contribuíram para o enriquecimento cultural de milhares de pessoas.




Centro Cultural repleto de alunos durante o Festival de Música, no ano de 2003.

Entre idas e vindas, e nem sempre recebendo o apoio necessário, a administração pública na área da cultura deu sinais de maturidade com a implantação do Programa VivOurinhos, em 2009, durante a gestão do prefeito Toshio Misato. Pela primeira vez na história da cidade, a gestão cultural foi pensada e planejada em grupo, discutida e votada durante um fórum que aconteceu no mês de abril daquele ano, reunindo artistas, produtores culturais e servidores da área da cultura.

A realidade daquele período contribuiu para que aquele processo tomasse impulso. Além da vontade política, de uma equipe qualificada e de um orçamento, foi decisiva a participação de pensadores, intelectuais e gestores experientes. Naquela época a população da cidade beirava os 100 mil habitantes e a proposta era identificar, conviver e produzir a diversidade artística e cultural do Ourinhos.

JornalBiz.com

Depois de debater por dois dias, foram aprovadas cinco diretrizes que deveriam orientar a gestão pública da cidade nos anos seguintes: oferecer uma programação cultural organizada e descentralizada; promover uma agenda de oficinas culturais em diversas áreas; implantação de um programa de fomento cultural por meio de editais; promover a formação de agentes multiplicadores e manter um sistema de comunicação eficiente, informando a população sobre a agenda de ações culturais.

Revista VivOurinhos reúne destaques de apresentações teatrais na cidade.

O resultado disso foram quatro anos de intensa programação cultural, com produção de filmes e livros, um trabalho de formação através de oficinas criativas espalhadas pela cidade, uma agenda de apresentações que ocorreram de forma descentralizada. Encontros de viola caipira e sessões de cinema percorreram os bairros da cidade. Cinco grandes festivais anuais foram realizados durante quatro anos.

Página da Revista VivOurinhos mostra destaques do Festival de Música.

A proposta de desenvolver uma gestão compartilhada da cultura trouxe grandes benefícios para a cidade, e viabilizaram projetos importantes. Exemplo disso foi o apoio do poder público às iniciativas de preservação da memória, como os projetos Ourinhos: Memória em Movimento e Arquivo de Lembranças, realizados pela Associação de Amigos da Biblioteca Pública.




Apesar das experiências reconhecidas, a gestão da cultura em Ourinhos sempre aconteceu de forma descontinuada, prevalecendo interesses alheios ao próprio setor. Soma-se a isso a constatação de que hoje no Brasil o desconhecimento gerado pela manipulação da informação tem gerado um pensamento equivocado sobre o papel do poder público na gestão da cultura. Porém, a história nos mostra que a valorização da cultura e o incentivo às manifestações artísticas sempre foram a melhor forma de resistência à intolerância e de promoção do ser humano.

Para produzir este texto, a equipe do Jornal Biz pesquisou em: Edições do Jornal Voz do Povo, disponíveis em www.tertulianadocs.com, Revista VivOurinhos, Jornal Edição Eventos, www.curtaourinhos.blogspot.com e acervo de Miriam Lopes Scucuglia.

Fotos: Acervo Museu Municipal, Luiz Carlos Seixas, Marcelo Negrão, Bernardo Fellipe Seixas

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