Um jardineiro no caminho

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“Você não tem umas mudas pra me dar?” pergunta Valdemir antes de começar a conversa. Ele já “correu o trecho”, pegou touro à unha, trabalhou como pedreiro e carpinteiro e teve uma namorada chamada Neuza.  O gosto por plantas e flores vem da infância vivida numa fazenda no Mato Grosso, onde a avó trabalhava como cozinheira na casa dos proprietários. Como era caprichoso, acabou cuidando do jardim.

Valdemir Alverim dos Santos, 52, “despraguejou” e tirou sozinho as pedras de toda a área onde está plantando o seu jardim, num terreno no final da travessa dos Pedestres, na Vila Perino, às margens da Rodovia Raposo Tavares, em Ourinhos. É ali que ele mora, num cômodo que garante barulho ininterrupto. “Essa aqui foi o entregador de gás que me deu”, conta, mostrando uma folhagem rosada, ao lado do banco de concreto que ajuda a compor o jardim.  Bem próximo dali fica um bebedouro que mata a sede do cavalo do seu Natalino, carroceiro que faz frete e tem ponto naquele local. “Eu cuido, molho todo dia, pego água ali”, mostra.

“Faço serviço de pintura, mas se a pessoa tiver pressa, não pego não. Gosto de fazer o trabalho bem tranquilo”, conta, revelando que prefere trabalhar sozinho, porque “é sistemático”.

“Tem um vereador que eu votei que prometeu mandar um pouco de terra pra fazer um aterro aqui. Mas sabe como é, eles prometem em tempo de eleição, depois esquecem”, lamenta.

Valdemir não frequentou escola, mas é ele quem escreve com capricho nas plaquinhas do jardim: “Preserve a natureza”, “Proibido jogar lixo”, além de algumas mensagens religiosas. Dona Adelaide, a vizinha, “até me deu o serviço de pintar a calçada da casa dela”.

A vida não tem sido fácil para ele: de manhã pode ser visto pela cidade empurrando seu carrinho de coletar lixo reciclado; à tarde o serviço é no seu jardim, na beira da estrada. “Comecei a beber com 16 anos, mas larguei com 28. Tive opinião. Nem parece que eu bebi, não é?”, comenta.

“Essa aqui foi o marido da vizinha que me deu… essa outra a finada Cida. Essa aqui é manga, essa outra é abacate”, conta, caminhando entre as covas adubadas com esterco que ele busca em uma chácara na vila São Luiz.

Valdemir está preocupado. Tem 15 anos de registro em carteira, mas não consegue trabalho fixo. Sabe que seu capricho com o jardim não garante muita coisa: “Desse jeito, só fazendo bicos, como vou aposentar?”.

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