Os desafios e superações de uma menina trans em Ourinhos

JornalBiz.com

A história de Ana é mais uma entre tantas histórias de superação. Ana é uma menina “trans” que vive com sua família em Ourinhos e tenta a todo custo ocupar o seu espaço numa sociedade que ainda teima em classificar as pessoas unicamente pela sexualidade. O Jornal Biz conversou com Paula, mãe de Ana e sua principal aliada na luta contra as inúmeras barreiras que a cada dia são ultrapassadas com muita coragem. Esta é uma história verdadeira, apenas os nomes são fictícios.

Há 18 anos, Paula e o marido viviam a expectativa normal de um casal que aguarda a chegada de um novo filho. O fato de ser o primeiro filho homem depois de duas meninas era um motivo a mais para comemorar. A mãe ainda se recorda do capricho na decoração do quarto do novo filho: “Parecia com esses quartos de revista”. Eles só não imaginavam que o destino lhes reservava muitas surpresas com aquela criança.

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Foi logo nos primeiros anos que Paula começou a notar algo de diferente no comportamento do filho. Os gestos e a maneira de se comportar no dia a dia chamaram a atenção dos pais, e não era difícil de perceber a identificação do menino com o universo feminino. “Achava curioso que ele saia do banho com a toalha enrolada embaixo dos braços, como fazem as meninas, protegendo o peito”, lembra Paula. O incômodo com a situação gerava uma irritação no pai, que tentava corrigir mostrando ao filho como um homem deveria se comportar.

Os anos se passaram, e ao completar 12 anos, para a surpresa de Paula, o filho a procurou para conversar, dando início a um processo de intensas descobertas para toda a família: “Ele achava que poderia ser bissexual, porque gostava de ficar com meninas, mas também sentia atração por meninos”. A confusão tomou conta da cabeça de Paula, que reconhece a dificuldade que enfrentou para lidar com aquela nova realidade. Embora percebesse que na verdade havia ali uma menina, ela não sabia como se comportar: “Eu não tinha ferramentas para lidar com aquela situação, sabia que ele gostava de coisas de menina, mas durante a infância nós reprimíamos, não entendíamos”. Paula nunca havia escutado a palavra “transgênero”, um termo que a partir daquele momento passaria a fazer parte do cotidiano da família, causando sofrimentos e alegrias, num contínuo processo de superação em que todos estavam envolvidos.

Para o pai a dificuldade de aceitação foi ainda maior. No início, acreditava que ser homem ou mulher era simplesmente uma questão de escolha, e criticava o comportamento do filho, chamando sua atenção cada vez que cruzava as pernas ou quando ajeitava o cabelo atrás da orelha, como fazem as meninas.

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Recentemente o Papa Francisco, maior líder religioso do planeta, fez declarações reconhecendo a igualdade entre todos, independente da sexualidade, despertando a ira de alguns segmentos cristãos. A relação entre religiosidade e sexualidade sempre foi um tema difícil e a família de Ana sabe muito bem como a intolerância religiosa pode se manifestar da forma mais cruel. As dificuldades em lidar com as transformações que Ana vivenciou na adolescência, fizeram com que o pai recorresse ao pastor da igreja evangélica que na época era frequentada pela família. A experiência não poderia ser mais traumática: “Na conversa com ela, diziam que estava com o capeta incorporado, e que se não mudasse seu comportamento iria para o inferno”. Hoje a família não frequenta nenhuma igreja e Paula se lembra desse episódio com muita angústia: “Percebi como a sexualidade alheia incomoda. A igreja protege pedófilos, gente que mente, que rouba, que faz fofoca. Mas não perdoa os que são diferentes quanto à sexualidade”.

Além das condenações da igreja, Ana viu seus amigos mais próximos se afastarem depois que assumiu a transexualidade, aos 15 anos. “Soube de pais de amigos que proibiram os filhos de conversar com ela, tinham receio que os filhos se contaminassem…”, conta Paula, entristecida. Conviver com tantas críticas e constrangimentos trouxe dificuldades emocionais intensas para a jovem Ana, que se entregou a uma prática comum em casos de rejeição a transexualidade: a automutilação.

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Paula conta que assim que entendeu que o caso da filha era a transexualidade, percebeu que o caminho mais adequado era pesquisar sobre o assunto e procurar orientação profissional: “Li tudo que encontrei e percebi que eu tinha uma menina com órgãos genitais equivocados. Não era a mente da minha filha”. Paula lembra que desde 2018 a transexualidade não é mais considerada doença psiquiátrica.

Todo esse processo resultou numa aproximação ainda maior entre mãe e filha. Não demorou para que surgisse a ideia de procurar um tratamento médico com hormonioterapia e a possibilidade de fazer a cirurgia de redesignação de sexo. Hoje a cirurgia é realizada pelo sistema público de saúde, mas pode demorar até 10 anos, segundo Paula. Na rede particular o procedimento pode custar até 50 mil reais: “Como isso é impossível para nós nesse momento, falei para ela que teria que ter muita estrutura emocional para esperar alguns anos”.

Enquanto aguarda a cirurgia, Ana passa por um acompanhamento que envolve vários profissionais. Além do psicólogo, um médico endocrinologista é responsável pelo tratamento hormonal que transformou seu corpo, tornando-o mais feminino. Paula lembra emocionada de dois momentos especiais vivenciados com a filha. Um deles foi quando ela escolheu o novo nome, e outro quando a presenteou com um sutiã: “Ela chorou muito, foi comovente. Sentiu-se acolhida e amada, como precisa ser”. A mãe se orgulha da força da filha para enfrentar tantos desafios: “Ela vive uma luta interna muito grande para se aceitar, e externa para ser ao menos respeitada. É difícil”. Paula não admite que chamem a filha pelo nome masculino: “Ela é uma menina”.

Além das dificuldades consigo mesma e com a família, a escola também mostrou seu lado perverso e preconceituoso. Como se não bastasse o isolamento causado pelo afastamento dos colegas, Ana foi constrangida pela diretora da escola que a impediu de usar o banheiro feminino. Usar o nome social e o banheiro feminino são direitos garantidos por lei.

Se na escola não foi fácil, manter um relacionamento afetivo não é menos desafiador. A mãe conta que “o problema é mais da família dos meninos”, que não aceita ver um filho se relacionando com uma menina trans. Aos 18 anos, Ana está enfrentando dificuldades em arranjar o primeiro emprego, e a mãe atribui ao preconceito que ainda se sobrepõe às qualificações para ocupar um posto de trabalho.

Na busca por informações e apoio, Paula encontrou solidariedade em um coletivo chamado “Mães pela diversidade”, que ela frequenta há 3 anos e que possui uma sede em Jacarezinho. O grupo reúne profissionais para auxiliar as famílias, dando apoio nas áreas jurídica, psiquiátrica, psicológica ou nutricional. “É uma rede de apoio e acolhimento para mães e pais. Ali trocamos experiências e apoiamos uns aos outros, para que a gente possa se fortalecer. Ouço relatos sofridos de famílias que abandonam a mãe com o filho trans”, conta. O grupo dá orientação sobre documentação e legislação que protege os transexuais. “Se, pela lei, minha filha pode usar um banheiro feminino, esse direito não pode ser negado. Ter novo nome também é um direito”. O grupo “Mães pela diversidade” mantém perfis no Facebook e Instagram.

Paula lembra como foi difícil para ela conviver com as acusações de que seria culpada pela filha transexual. “O pai me culpou, as irmãs diziam que eu a protegia demais”. Hoje ela reconhece que tudo mudou, e tanto o pai como as irmãs compreendem que a sexualidade não é uma escolha, “é uma condição”. Atualmente Paula enxerga tudo com mais serenidade e sabe que esse processo provocou também um crescimento pessoal: “A experiência de ser mãe de uma menina trans me transformou em um ser humano melhor. Passei a olhar as pessoas sem a questão de gênero e sexualidade. É outro olhar”.

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Num momento em que o país enfrenta uma onda conservadora, com a intolerância de grupos religiosos que não aceitam a discussão de gênero nas escolas, Paula é categórica: “É preciso incluir essas questões nos currículos escolares. Além de ensinar as crianças a lidar com o próprio corpo, com as questões de higiene, as questões de gênero precisam ser abordadas. Somos todos iguais como seres humanos”.

Ana integra uma pequena parcela de pessoas trans que recebe tratamento médico adequado e total apoio da família. Porém, a realidade mostra que com dificuldades de toda ordem, sem conseguir emprego e com o abandono da família, muitas meninas trans acabam se prostituindo para sobreviver.

A intolerância e o preconceito colocam o Brasil liderando uma triste estatística, a de ser o país que mais mata LGBTs. Em 2019, segundo relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia, foram registrados 329 mortes violentas, sendo 297 homicídios e 32 suicídios. Histórias como a de Ana mostram que é possível transformar essa triste realidade a partir de uma cultura de respeito e de acolhimento do outro.

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