Um palavrão na boca do povo

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Paralelepípedo. Eis uma palavra difícil de falar sem engasgar. Na cidade que vai completar seu centenário no próximo ano, ainda existem ruas pavimentadas com esse tipo de pedra, formada pela rocha granito, a mesma usada para fazer pias ou pisos.  O quarteirão que circunda a Igreja Santo Antonio, na vila Odilon, é um exemplo.

Foi muito fácil encontrar defensores desse tipo de revestimento: “Se eles cuidassem do asfalto, tinha vantagens porque é mais lisinho. Mas como eles não cuidam, é melhor o paralelepípedo”, comentou Rafael, que passeava com a namorada Sabrina pela praça da vila Odilon, que é circundada por pedras desse tipo. “O asfalto que usam em Ourinhos é muito vagabundo, dura uns seis meses e já precisa recapear”, complementa Sabrina.

O sr. Ari Ubaldo da Rocha, morador daquele quarteirão, conta que as pedras foram colocadas em volta da Igreja  durante a gestão do ex-prefeito Barbosinha (Cândido Barbosa Filho, prefeito no período de 1948 a 1951). “Do jeito que a gente vive hoje em Ourinhos… mil vezes o paralelepípedo… Asfalto é muito caro, e todas as ruas estão esburacadas. A gente sai de um buraco e cai em outro. Além disso, onde tem essa pedra não tem enchente”, ensina o sr. Ari.

As cidades da região receberam a pavimentação com paralelepípedo nos primeiros anos do século passado, e muitas ainda conservam essa prática. Nas cidades consideradas históricas, existem pavimentos com mais de 100 anos que se encontram em perfeito estado de conservação. Itu é um exemplo, com calçamento preservado há mais de um século.

Especialistas em meio ambiente consideram que esse tipo de pavimento é ecologicamente correto, pois permite a infiltração da água de chuva, abastecendo o lençol freático e diminuindo a vazão de água para os rios, com menor risco de enchentes.

Além de ser impermeável, o asfalto absorve muito calor do sol e libera para o meio ambiente, elevando as temperaturas nas cidades. Mesmo depois que o sol se põe, o asfalto continua liberando calor. O aumento da temperatura em relação a outros revestimentos é de até 3º C, com sensação térmica de até 5º. C.

O paralelepípedo, por características geológicas da pedra, absorve menos calor. E tem mais uma vantagem: Depois de algum tempo aparecem fungos e gramíneas inseridas entre as juntas, nas partes que normalmente acumulam areia. Essas plantinhas desempenham funções importantes funcionando como um filtro e diminuindo a velocidade de escoamento das águas superficiais e dissipando o calor recebido pelo calçamento. E tem mais: pedras de paralelepípedo duram muitas décadas sem nenhum desgaste,enquanto o recape asfáltico tem vida útil muito curta.

Em uma das avenidas mais antigas da cidade, a Jacinto Sá, percebe-se o desenho dos paralelepípedos, quase visíveis sob o asfalto. Outras ruas da cidade também receberam o revestimento asfáltico sobre as pedras, e com a deterioração da atual pavimentação, eles acabam ressuscitando.

“Do jeito que está, seria melhor o paralelepípedo. Além de durar muito e ser ecológico, ele obriga os motoristas a dirigir com mais cuidado”, finaliza Rafael, abraçando Sabrina e atravessando a ruasem buracos, pavimentada há 67 anos.

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1 COMMENT

  1. Um viva para paralelepípedos, chega a ser poética a descrição que fez sobre o casal passeando em volta de uma igreja, igreja essa que ainda percebe ao redor ruas de paralelepípedos. Nos remete as décadas de 40, 50 uma época romântica e glamorosa!