O desafio da reconstrução de um país

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Neste momento os brasileiros se deparam com as dificuldades para superar as crises econômica e política, que dizem ser a maior da história, e que tá durando tempo demais, provocando desgraças demais, sobrevivendo igual irmãs siamesas – onde uma vai, a outra vai junto. Viramos uma massa disforme e agressiva, revidando com pedras na mão, desencantados com o escancaramento de nossos equívocos políticos.

Como partes da natureza, porém, saberemos resistir. É só observar uma árvore com uma poda drástica. Fica retraída por um tempo, depois vai brotando, a princípio tímida, até que a vida se impõe com toda a sua força, desafiando a motosserra. E é nisso que penso agora, aflita para levantar o olhar desta lama e enxergar à frente, assistir a lagarta virar borboleta e voar. Se o mesmo mundo que provoca e fomenta o horror, a desigualdade e o sofrimento também produz beleza e esperança, que ela comece a aparecer, o tempo urge.

Até porque teremos que passar por um longo período de reconstrução, para só depois voltar ao desenvolvimento. É como se estivéssemos em guerra. Funcionários públicos do estado do Rio de Janeiro estão há meses sem receber salários, existem milhares de desempregados e a falta de políticas públicas nas áreas de segurança e saúde matam todo dia.

Votaremos em quem nas próximas eleições? Que tipo de gente vai se apresentar pedindo nosso voto? Teremos que encontrar respostas e movimentar a roda do regime democrático, agora mais críticos e experientes.

Na ausência de projetos coletivos concretos, instalou-se a intolerância, o desencanto, o moralismo e até um certo fanatismo religioso. Como somos um país jovem e muitos valores e conquistas sociais não haviam sido consolidados, assistimos ao esfacelamento de políticas públicas, que foram perdendo a importância, em meio ao nada ou ao vale tudo generalizados.

Na iminência de perdermos direitos trabalhistas, vai vencendo a ideia da terceirização, que diminui a importância do trabalhador, tornando-o descartável e desumanizado. Não veremos mais histórias como a do meu avô, que ficou 40 anos na mesma empresa e sentia orgulho disso.

Teremos uma geração que terá dificuldades em se aposentar, e assim sua vaga não ficará disponível no mercado de trabalho, dificultando para os mais jovens. E quando conseguir finalmente a aposentadoria, o valor do salário não será suficiente para as necessidades básicas. Aí vão aparecer novamente políticas assistencialistas e de caridade, que fazem do trabalhador uma presa fácil de propagandas populistas.

Esse período de reconstrução que, espero, esteja logo à frente, será o de reafirmação de conquistas antigas. Vai ser preciso, já que andamos para trás. Então, vamos de novo aprender e ensinar às crianças que a realização de políticas públicas de segurança, educação e saúde são obrigações do governo, e que precisam ser eficazes.

Que crianças e velhos precisam de políticas de proteção; que existem bons e maus políticos, como em qualquer área da vida em sociedade; que precisamos lutar por um sistema educacional que ensine a pensar e criar; explicar para quem ainda não entendeu que é preciso oferecer oportunidades iguais para todos; que é preciso respeitar o ser humano, independente de gênero, etnias ou outras escolhas; que precisamos recuperar o lugar importante que a arte tem na vida das pessoas, respeitando artistas, retomando orquestras e políticas culturais que foram descartadas… ufa… tudo de novo!

Que as novas gerações aprendam com os nossos erros, e que arregacem as mangas, pois terão muito trabalho.

Neusa Fleury é professora, escritora e gestora cultural. Regeu diversos grupos corais e foi Secretária de Cultura por vários anos em Ourinhos e região.

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