Ourinhos na “Guerra Paulista” de 1932

0
3266

“Neste solo tremulou bandeira de treze listas.

Aqui também palpitou

o coração dos paulistas!” (Norival Vieira da Silva)

Uma tropa postada à frente da antiga igreja matriz de Ourinhos revela o clima que envolvia a cidade naquele mês de julho. Não por acaso, anos depois aquela rua de terra, ao lado da Praça João Pessoa, atual Mello Peixoto, seria rebatizada de Nove de Julho, uma referência ao movimento armado paulista que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista de 1932.

O Batalhão Teopompo em frente à antiga Igreja Matriz, onde hoje está o prédio da Telesp/Vivo. A rua se chamou Minas Gerais até 1934, quando então se tornou 9 de Julho, em homenagem à data.

“Ourinhos toma aos poucos feição de uma praça de guerra”, escreveu Constantino Molina na Revista “Salve 9 de julho”, contando sobre o dia 25 de julho de 1932. Uma grande mobilização popular em apoio ao movimento agitou a cidade. Pela posição geográfica estratégica, na divisa com o estado do Paraná, Ourinhos acolheu centenas de soldados que vieram de outras localidades, além dos ourinhenses que se alistaram voluntariamente. A revolução teve início no dia 9 de julho, e mesmo sendo derrotada pelas tropas federais, a data se transformou em feriado para os paulistas. O levante suscitou enorme sentimento de civismo e envolveu os soldados de São Paulo em uma batalha desigual.

O movimento paulista de 1932 pode ser entendido como um desdobramento de outro acontecimento importante que aconteceu dois anos antes, a Revolução de 30, que pôs fim ao período conhecido como República Velha. Até aquela data, os grandes cafeicultores de São Paulo e os produtores de gado leiteiro de Minas Gerais se revezavam no poder, um acordo que ficou conhecido como “política do café com leite”. Nas eleições de 1930 seria a vez dos mineiros, mas o então presidente paulista, Washington Luís, apoiou um candidato de São Paulo, Júlio Prestes, que acabou eleito. O descontentamento das oligarquias de outros estados, os efeitos da crise econômica mundial que fez despencar o preço do café e a denúncia de fraudes nas eleições, contribuíram para formação do movimento que destituiu o presidente Washington Luís, instalou um junta militar e levou o gaúcho Getúlio Vargas ao poder, dando início ao período conhecido como “Era Vargas”, que se estendeu até 1945.

Jornal Voz do Povo, 6 de novembro de 1930: Ourinhos em peso foi à praça Mello Peixoto comemorar a vitória.

Naquele momento, a perda do poder político provocou uma intensa insatisfação nas elites paulista, representada principalmente pelo Partido Republicano Paulista, o PRP. Além de fechar o congresso e diminuir os poderes dos estados, Getúlio Vargas passou a nomear interventores federais que desagradaram ainda mais a população.

No documentário “Constitucionalistas de 32”, gravado no Teatro Municipal Miguel Cury em 13 de julho de 1993, o farmacêutico José Arruda Silveira, que lutou com os paulistas em Salto Grande e posteriormente se instalou em Ourinhos, diz: “Eu me revoltava com a atitude dos interventores, o Manoel Rabelo era sistemático, esquisito, arbitrário… São Paulo foi espezinhado”.

O farmacêutico José Arruda Silveira em depoimento no documentário “Constitucionalistas de 32”, gravado no Teatro Municipal de Ourinhos em 1993 por Luiz Carlos Seixas.

José Arruda se refere a Manoel Rabelo Mendes, um general carioca nomeado interventor federal de São Paulo, de novembro de 1931 a março de 1932. Os quatro interventores que passaram por São Paulo não conseguiram conter a insatisfação. A atitude de Vargas marcando eleições para 1933 e a nomeação do paulista Pedro de Toledo como interventor em São Paulo não evitou que a capital paulista se transformasse num barril de pólvora, com a realização de comícios e manifestações.

___continua após publicidade___

A radicalização do movimento aconteceu quando em 23 de maio, durante um comício de estudantes da Faculdade São Francisco, cinco jovens foram mortos a tiros num confronto com grupos ligados ao governo federal: Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa, Antônio Américo Camargo de Andrade e Orlando de Oliveira Alvarenga, incluído posteriormente na lista. MMDC, as iniciais dos nomes dos estudantes se tornou o nome do movimento de resistência à ditadura. A essa altura, tanto o PRP quanto o Partido Democrático, que havia apoiado a Revolução de 30, se aliaram ao movimento.

Cartão postal em homenagem ao MMDC.

No dia 9 de julho foi deflagrada a revolução sob o comando geral do coronel Isidoro Dias Lopes, que partiu com tropas rumo ao Rio de Janeiro para destituir Getúlio Vargas. Os paulistas esperavam o apoio dos estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, o que não aconteceu. Pelo contrário, rapidamente São Paulo se viu cercada por mais milhares de tropas federais.

___continua após publicidade___

Um dia depois, o delegado de Polícia de Ourinhos recebeu telegrama para que a corporação da cidade seguisse para São Paulo no primeiro trem. Os soldados desceram pela praça acompanhados pela banda que tocava hinos marciais e patrióticos, rumo à estação ferroviária. Teve início então uma empreitada para reunir jovens voluntários que quisessem se alistar, sob a liderança do prefeito Theodureto Ferreira Gomes. O sentimento de patriotismo e a certeza de que o país precisava promulgar uma nova constituição para voltar à democracia alimentava a vontade e o orgulho pela luta.

Celebração de missa com participação dos soldados e da população em frente à antiga Igreja Matriz, na atual rua 9 de julho.

O batalhão ourinhense recebeu o nome de “Coronel Theopompo de Vasconcelos”, e de início sua sede ficou na Praça Mello Peixoto, na antiga agência Ford. Os treinamentos para os voluntários eram feitos todos os dias em marchas em torno da praça.

Cozinha do acampamento em Ourinhos.

A mobilização envolveu inclusive um grupo de senhoras que se organizou para conseguir donativos para os soldados constitucionalistas. Constantino Molina descreveu com precisão o resultado do trabalho das mulheres: “A iniciativa teve sucesso, e elas angariaram 3:500$000 em dinheiro e vários gêneros e serviços. Outra commissão de abnegadas Senhoras e Senhoritas confeccionaram camisas e ceroulas para todos os soldados aqui aquartelados”.

Senhoras que organizaram o Café Soldado: Alzira Santos Pereira, Chiquinha Mano Filho, Emilina Sassi, Emilia Tocalino e Alzira Nicolosi.

A Igreja Católica também protagonizou momentos de ativismo. Em panfleto distribuído à população o padre Victor Moreno incitava a participação de todos na causa paulista: “Ourinhenses, a postos! É a religião que vos chama. Si ha algum retardatario, si existe alguem que ainda não se compenetrou da causa que defendemos, venha, hoje, sabbado, ao grande comicio que as 9 horas realizarse- ha no Largo desta cidade, onde terão ocasião de ouvir varios oradores que com palavras repassadas de patriotismo, vos demonstrarão que defendemos a causa da lei e da justiça”. Boa parte da população parece ter se sensibilizado com o apelo.

Em todo o Estado de São Paulo, cartazes convocavam jovens para a luta.O prédio do Grêmio Recreativo de Ourinhos foi transformado em “Cruz Vermelha”, e para lá eram levados os feridos.

Médicos e Enfermeiras que trabalharam na Cruz Vermelha.

Um número considerável de médicos e enfermeiros voluntários atendiam aos doentes: “Foi offerecido neste dia 17 de julho aos soldados aqui estacionados um «lunch» e distribuídos com profusão cigarros e phosphoros na sede da «Cruz Vermelha » e na Ponte do Paranapanema, onde outros defensores da Constituição já se achavam em postos”. Um grupo de mulheres instalou o “Café Soldado” em “um dos quintais de Henrique Tocalino”, próximo à estação, e fornecia cerca de 400 litros de café por dia.

A foto mostra alguns dos integrantes responsáveis pela preparação das refeições para o Batalhão Theopompo, de Ourinhos.
“Você tem um dever a cumprir”, dizia o cartaz do MMDC.

Enquanto a cidade buscava uma organização para viver esse período conturbado, jovens inexperientes tinham seu primeiro contato com a luta armada. Em seu depoimento no documentário “Constitucionalistas de 32”, Jeanduhy Perino conta que tinha apenas 17 anos quando foi até o Cine Cassino para se alistar.

Não tive nenhum treinamento, de casa eu fui pra trincheira. Era exatamente duzentos metros pra cima de onde está o clube Diacuí, bem defronte a pedra criminosa. Eu conhecia toda aquela região ali, então eu tinha facilidade para buscar comida, pra buscar munição, eu é que puxava eles pra lá e pra cá. Então a gente até brincava,  porque a gente não tinha munição, recebia quatro ou cinco balas… a gente dava um tiro e eles respondiam com quinhentos”.

“Para não deixar lá (próximo do campo inimigo), eu trouxe um lança-granada nas costas da Pedra Criminosa até a Vila Odilon”, disse Jeanduhy Perino, no documentário “Constitucionalistas de 32”.

Antônio Dias Ferraz, que também participou do documentário, era Chefe de Escritório de Locomoção e Tração da Companhia Ferroviária São Paulo Paraná, e contou que foram recolhidos todos os trens de carga, de lastro e de passageiros que se encontravam nas linhas do norte do Paraná: “Logo depois as forças do governo atingiram Jacarezinho, mas já estava tudo recolhido em Ourinhos. Como a estrada já não tinha mais função, os empregados foram todos colocados à disposição, cada um ficou livre e podia fazer o que bem quisesse. Muitos deles se alistaram no batalhão Theopompo”.

Agrupamento de Ourinhos no coreto da praça Mello Peixoto.

Antônio conta ainda que continuaram trabalhando “um engenheiro, dois ferreiros, um ajudante, dois mecânicos, um mecânico de precisão e um torneiro”, que receberam ordens para construir armamentos. Os ex-ferroviário diz que a ideia de produzir armas utilizando a estrutura da companhia ferroviária foi de um engenheiro, em acordo com o comando das tropas ourinhenses: “Começaram a construir a catapulta, esse armamento antigo, mas como a ferragem era importada num aço especial, não foi possível construir uma coisa que lançasse granada das oficinas até o Rio Pardo, não foi mais do que até a cadeia pública”.

Reconhecido entre os soldados por ser um exímio nadador, Antônio Dias Ferraz é hoje nome de uma rua no jardim Santa Fé.

Embora houvesse muita disposição para a luta, a velocidade com que os fatos aconteceram e certa precariedade impediram a realização dos planos do Batalhão Coronel Theopompo: Pediram também a construção de canhões, mas como não havia eixo próprio para canhão, foi feito com o eixo da maior locomotiva que nós tínhamos. Foi feito então um canhão completo, mas demorou muito tempo. Esse daria resultado se a revolução continuasse mais tempo”, revelou Antônio.

Pedra criminosa: local de confrontos.
A “pedra criminosa” fica em uma curva da BR-153, às margens do Rio Paranapanema, no trecho entre Ourinhos e Jacarezinho.

Jeanduhy Perino lembra da precária situação dos paulistas: Os gaúchos subiram a pedra criminosa,  então a gente  falava ‘Vamo dá parpite!’, dava um tiro pra cima e vinha aquela barbaridade… Não podia por a cabeça fora do buraco, a trincheira era um buraco no chão e a proteção era um saco de areia”. Ele se recorda também da morte de Luís Rodrigues de Souza:

O Luís levou um tiro na cabeça por dentro da seteira, aquele buraquinho que punha o fuzil… entrou a bala ali e pegou na cabeça dele. Que falta de sorte, coitado do Luis…”.

___continua após publicidade___

Além de Ourinhos, outras cidades da região também participaram da revolução. Em Santa Cruz do Rio Pardo, o alistamento era feito no coreto da Praça do Jardim. O professor Norival Vieira da Silva, que conduziu o documentário realizado com constitucionalistas em 1993 no Teatro Municipal, conta sua experiência: “Eu tinha nove anos e morava em Santa Cruz do Rio Pardo. Meu pai, Tertuliano Vieira da Silva, tinha uma agência de automóveis franceses que hoje não existem mais, e os automóveis e as peças foram requisitados pela revolução. E aí mostra o espírito de patriotismo do paulista naquela época, meu pai não se magoou não, achou que estava certo. Não recebeu nada, recebeu só papel”. Norival conta outras passagens:

O professor Norival Vieira da Silva, importante historiador e escritor ourinhense.

“A gente usava um bonezinho que chamava de bibi, de cor cáqui, com a bandeira paulista e a bandeira brasileira. E eu andava com aquilo, e as crianças todas de Santa Cruz andavam com aquilo o dia todo”.

Brincadeira de soldados: integrantes do Batalhão Theopompo posam para foto em momento de descontração em 1932.

Por também ser divisa de Estado, Chavantes foi uma das frentes da Revolução. Em Salto Grande os combates aconteceram nas barrancas do rio Paranapanema. O farmacêutico José Arruda Silveira confirma as dificuldades e a fragilidade das tropas nessa região: Nós não tínhamos condições de enfrentar aquelas forças. De fato, no nosso batalhão, de cada 20 ou 30 poucos tinham um fuzil, a maioria tinha carabina do papo amarelo, a gente dava um tiro e servia de ponto para ser atacado. Eu me lembro também que em Salto Grande puseram na torre da igreja uma metralhadora, mas ela estava tão estragada que dava tiro pra esquerda ia pra direita, dava tiro pra direita ia pra esquerda…”.

Em Chavantes, pedra histórica da Revolução de 1932, com inscrições dos combatentes.

Além de Luiz Rodrigues da Silva, outro ourinhense morreu em combate durante a Revolução de 1932: Paulo Sá. Seu primo, Moacyr de Mello Sá conta como foi: “O Paulo morreu no último dia, numa trincheira na região de Buri. A placa que eu mandei fazer e que está na rua onde eu moro e que tem o nome dele, eu pus “morto em combate”, porque ele estava na trincheira. Ele foi assassinado, porque ele levantou e do outro lado deram um tiro. Pegou um tiro na carótida, morreu na hora”. Os restos mortais dos dois combatentes foram sepultados no Mausoléu do Soldado, no Parque do Ibirapuera em São Paulo.

Morto em combate, o ourinhense Paulo Sá hoje dá noma a uma importante rua do centro da cidade.

A precariedade dos armamentos dos paulistas contrastava com as armas automáticas e todo o equipamento da Marinha e Exército das tropas federais. Sem armas potentes, os paulistas chegavam a usar matracas para simular tiros de metralhadora.

Soldados paulistas entrincheirados.
No Clube Balneário Diacuí, que já se chamou Clube 9 de Julho, monumento que lembra os combatentes de 1932 está instalado exatamente no local onde foram as trincheiras. A frase na placa é de autoria do professor Norival Vieira da Silva. O obelisco foi inaugurado durante o governo do prefeito José Maria Paschoalick.

A “Guerra Paulista” contou com cerca de 60 mil combatentes e mais de 200 mil voluntários. As forças desproporcionais fizeram com que no dia 2 de outubro os paulistas assinassem a rendição na cidade de Cruzeiro. Embora derrotados, os paulistas viram fortalecer a luta por uma nova constituição, e nas eleições de 1933 Armando Sales de Oliveira foi eleito governador do estado de São Paulo.

Durante muitos anos, os veteranos da “Guerra de 1932” participaram de eventos cívicos e receberam homenagens em diversas cidades do Estado de São Paulo.
O Museu Municipal de Ourinhos possui em seu acervo diversos objetos utilizados pelos soldados.

Em sua última fala, José Arruda Silveira afirma orgulhoso: Fomos vencidos de fato pelas armas, não resta dúvida, mas também conseguimos posteriormente o nosso desiderato, que era exatamente uma nova constituição, e ela veio posteriormente. E isso foi pra nós um grande prêmio, nessa luta que São Paulo marchou, marcando essa jornada de 32”.

Para produzir este texto, equipe do Jornal Biz pesquisou o filme “Os constitucionalistas de 32”, disponível no youtube; exemplares do Jornal “A voz do povo”, e Revista 9 de julho, de Constantino Molina, disponíveis em http://www.tertuliana.com.br/docs,

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/07/feriado-de-9-de-julho-celebra-revolucao-constitucionalista-de-1932.shtml

https://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,revolucao-de-1932,892,0.htm

https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Revolucao1932

Imagens: Acervo do Museu Municipal de Ourinhos, Museu Histórico de Chavantes, Folha de Cruzeiro, Acervo do Estado, Frederico Hanh, Bernardo Fellipe Seixas.

Clique aqui e leia os outros episódios da maior série jornalística sobre o primeiro centenário de Ourinhos.

Siga @JornalBiz no Instagram