Em busca da cordialidade perdida

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Numa época em que os estudiosos ainda não tinham se aventurado a analisar o caráter dos brasileiros, o historiador Sergio Buarque de Holanda, pai do Chico, escreveu “Raízes do Brasil”.

No livro, publicado em 1936 e que continua sendo uma referência, o autor constrói a ideia de “homem cordial”.  O conceito é complexo e evidencia as nossas contradições e, por que não admitir, a nossa hipocrisia nas relações sociais e familiares. Anos depois, na década de 1970, uma personagem do programa “A praça é nossa” tinha um bordão que dizia “brasileiro é tão bonzinho…”, escamoteando as malandragens de todo dia. Essa imagem de povo simpático, cordato e alegre correu mundo e ainda está grudado nos brasileiros, mesmo que a cada dia a gente se afaste mais disto.

Imagem: internet

Estatísticas estão aí para comprovar o quanto estamos ficando violentos, a cada dia mais longe da cordialidade. Na falta de entendimento civilizado de que o crime deve ser punido pela Justiça, não raro leio notícias cruéis sobre linchamentos, que me dão uma tristeza danada.

A sensação de impunidade estimula a percepção de que não existem regras para disciplinar a nossa convivência; e programas de TV prestam um desserviço estimulando a violência.  Daí para a intolerância geral é um passo, e como já perdemos a paciência e não temos um lastro de cultura e educação para reprimir o mau comportamento e ajudar a organizar o pensamento, vivemos uma espécie de caos, um vale tudo.

Esse sentimento de impotência frente à realidade está sendo compartilhado por muita gente preocupada com este estado de coisas; o que não conseguimos vislumbrar ainda é a tal luz no fim do túnel.

Parece que o individualismo tem sua parcela de culpa nesse estado de coisas. Se cada um de nós está muito ocupado vivendo a sua própria vida, não dá tempo de perceber como anda o bairro onde moramos, discutir os problemas comuns com os vizinhos ou juntar esforços para campanhas de educação ou meio ambiente. Não é fácil escapar desta armadilha, já que com a internet e com medo da violência, vivemos cada vez mais isolados – mas isso não é bom pra ninguém.

Colocamos nos políticos a culpa por todas as mazelas, e eles nunca tiveram a moral tão baixa como nos tempos atuais. A grande maioria fez por merecer, pois se aproveitam de um sistema político que colabora e até incentiva a corrupção. Em nome de uma malfadada “governabilidade” tudo é permitido, sem nenhum tipo de escrúpulo ou culpa.

Ouvi a palavra “governabilidade” da boca de uma pessoa que hoje ocupa um alto cargo político, tentando me fazer acreditar que algumas decisões não muito corretas precisavam ser tomadas para garantir que as coisas continuassem acontecendo da mesma forma, sem sustos. Pensei na hora que alguns valores não poderiam nunca ser discutidos, não pode existir negociação quando o assunto é honestidade, respeito, preservação da dignidade ou proteção do bem estar comum.

Tomara que a gente consiga vencer as dificuldades deste momento, assumindo as responsabilidades sem esmorecer na vontade de deixar para os filhos e netos um país melhor. E se conseguirmos recuperar um pouco da cordialidade perdida, sorte a nossa!

Neusa Fleury é professora, escritora e gestora cultural. Regeu diversos grupos corais e foi Secretária de Cultura por vários anos em Ourinhos e região.

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