Caro, ruim e dura pouco

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Crônicas diversas | Jornal Biz

Ourinhos também tem as suas lendas. Uma das que mais rendem histórias é a passagem pela cidade do falso príncipe descendente direto da Família Real. O herdeiro do imperador Pedro II na linhagem monárquica dos Orleans e Bragança morava numa edícula baratinha na distante Vila Musa, mas era recebido para lautos jantares pela nobreza ourinhense. Dizem que chegou a dar aula numa faculdade local. Os detalhes são dignos de uma comédia como aquela em que Carlitos (Charles Chaplin), fugitivo da cadeia, se passa por vigário numa cidade pequena do interior.

Outro rei que passou por Ourinhos foi o cantor Roberto Carlos. No início da carreira, na década de 1960, quando fazia shows em palcos de cinemas, e vinte e cinco anos depois para se apresentar na Fapi.

A chuva caiu forte o dia inteiro e entrou pela noite fria do nosso quase inverno. Era tanta água que o cancelamento do show era dado como certo. A produção do cantor orientou os organizadores da feira que no camarim não poderia entrar nada ou ninguém vestido de roxo, e que Roberto Carlos interromperia o show se alguém o fotografasse usando flash. A estrutura metálica que cobria o palco não resistiu ao peso da lona, envergou, e foi preciso sangrar a água acumulada, isso quando a orquestra já estava a postos, embaixo da lona, aguardando pelo rei. Nunca se viu tanto guarda-chuva junto em Ourinhos. A multidão impermeável só arredou pé da arena quando ele atirou o último botão de rosa. Durante 50 anos a feira agropecuária de Ourinhos orgulhou-se de ser a maior festa de portões abertos do Brasil. Tony Belloto me contou que vinha de Assis, onde morava quando ainda não era um guitarrista dos Titãs, para ver os shows de graça. Por aqui passaram nomes como Martinho da Vila, Alceu Valença, Zeca Pagodinho, Elba Ramalho, Tonico e Tinoco, Ray Conniff, Almir Sater… até o Roberto Carlos!

Neste ano, pela primeira vez, decidiram cobrar para assistir aos shows na Fapi. Vi o cartaz com a programação e não me animei a ir ver nenhum. Para um dia menor da semana anunciavam um tal show cultural, donde se conclui que os demais eram de outra natureza. O baixo nível artístico somado ao momento de crise e à novidade do ingresso pago rendeu muita conversa na cidade. A melhor que ouvi foi das três senhoras judias (seriam irmãs?).

– Viu que caro o show do Bolinha da Vez?

– Sim, e o show foi uma porcaria!

Ao que a terceira completou:

– Caro, uma porcaria, e ainda só durou 40 minutos!

PASCOALINO S. AZORDS

18 de junho de 2017