Aos 86 anos, Wilson Pereira mantém sua paixão pelas estradas

Wilson e o filho Wilsinho.

Caminhoneiro continua trabalhando o dia todo, de segunda a sexta

No sábado, um caminhão Mercedes permanece estacionado na rua Ângelo Peruci, na Vila Brasil. O modelo, conhecido como ‘muriçoca’, roda de segunda a sexta, carregado de sacos de cimento. O interior da cabine pode ser considerado a segunda casa do motorista Wilson Pereira.

Wilson nasceu no dia 6 de fevereiro de 1933 e viveu sua infância na região de Garça: “Nasci e fui criado em fazendas”. O pai trabalhava em uma olaria que funcionava na fazenda Irajá: “Mas a gente plantava arroz, feijão, milho, tudo pra casa. Só comprávamos sal, açúcar e querosene pra lamparina”. Em Júlio de Mesquita Wilson estudou até a terceira série. Aos dois anos, o caçula da família foi entregue aos avós, que criaram o menino: “Meus avós maternos ficaram sozinhos porque o filho mais novo casou, e pediram pra minha mãe dar um filho pra eles criarem. Eles foram bons pra mim”. Mas os tempos eram difíceis e o cotidiano de trabalho começava na madrugada. Às 4 horas, o menino de 12 anos era acordado pelo avô para tocar os burros que ficavam girando para amassar o barro. No inverno a situação era ainda mais complicada: “Eu não tinha sapato, quando geava, a minha alpargata roda, com sola de corda, deixava os pés molhados o dia todo”. Quando completou 15 anos, já sabia diferenciar o barro de melhor qualidade, que era retirado do barranco do rio e transportado numa carroça: “Tem barro que é preto e dá uma liga boa, o mais amarelado é igual saibro”.

Na parede da casa, em Ourinhos, quadros com fotos dos filhos e netos e até uma ‘praguinha’ de campanha do saudoso vereador Fauez Salmen.

O sonho de ser motorista surgiu logo cedo. Quando ia buscar lenha com a carroça ficava observando os caminhões e alimentava o desejo de um dia poder dirigir: “Eu via aquele ‘Fordinho 37’, quando andava parecia que chorava, só tinha o para-brisa, não tinha porta nem teto, não tinha nada”. Ali o menino já começava a decidir o que queria fazer na vida.

Quando completou 18 anos, Wilson mudou para Garça e foi trabalhar como cobrador de uma ‘jardineira’, como eram conhecidos os antigos ônibus que tinham um capô dianteiro parecido com o de um caminhão. “A jardineira era toda aberta, e o estribo era uma tábua que ia do para-lamas até a traseira. Quando chovia tinha uma cortina de lona, que tinha que puxar”, lembra.  Enquanto fazia seu trabalho, ele aproveitava para ficar observando o motorista que conduzia a jardineira por entre as fazendas até chegar em Álvaro de Carvalho, destino final da viagem. Percebendo o interesse do rapaz, um dia o motorista chamado Sebastião perguntou se ele queria guiar: “Ele falou para os passageiros e como ninguém reclamou… Eu nem sabia que tinha de mudar a marcha, mas ele foi falando e ali eu aprendi a dirigir”. Em outra ocasião, durante uma viagem o motorista passou mal quando passavam pelo Rio do Peixe: “Ele pediu pra eu dirigir e foi deitar lá atrás. Ele foi me orientando”.

Wilson lembra ainda de um episódio que aconteceu quando ainda era cobrador. Como precisava dele para outro serviço, o dono da empresa, chamado Albano, pediu para que ele fosse almoçar com a jardineira reserva. No caminho de volta ele foi parado por um guarda que o reconheceu, e foi logo perguntando: “Mas você não é cobrador? Como é que tá dirigindo?”. O guarda seguiu com ele até a empresa, para que o dono explicasse aquela situação. Mas a resposta do dono da empresa surpreendeu Wilson, e mais ainda o guarda: “E quando você vem aqui pedir passagem pra passear com a família, aí pode? Minha passagem é pra vender, mas eu te dou… e o guarda foi embora quieto. Seu Albano tinha muita confiança em mim”.

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Wilson chegou a Ourinhos em 1953, mas como não havia feito o Tiro de Guerra, foi obrigado a servir o exército em Aquidauana, no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), onde permaneceu por oito meses no setor de engenharia. “Um tenente comprou um ‘Fordinho 29’, mas não sabia guiar. Quem ensinou fui eu, e lá tirei minha carta”, conta Wilson. A experiência do trabalho na roça também contribuiu naquele momento: “O cozinheiro do quartel era um mineiro grandão. Quando precisava pegar lenha pra fazer comida eu era escolhido. Ia de caminhão, eu era o motorista”.  Ele se recorda ainda que na lateral do caminhão que dirigia eram armazenadas bombas, dinamites, que eram utilizadas também na construção de estradas. O local servia de banco para os soldados. “Já pensou se explodisse?”, brinca.

Com a banda do Maestro Américo de Carvalho, na porta da Catedral Senhor Bom Jesus (Matriz). Wilson é o primeiro da esquerda. | Foto: Francisco de Almeida Lopes

Quando retornou a Ourinhos foi contratado como ajudante da calceteiro, onde o pai já trabalhava: “O calçamento da cidade era feito com paralelepípedo e estava parado na rua Paraná”. Depois de alguns meses na função, Wilson assumiu a vaga de motorista e passou a dirigir um ‘Internacional 160, a gasolina’.

Foi nessa ocasião que conheceu Maria Isabel, enteada de Américo de Carvalho, o conhecido maestro da Banda Municipal, com quem viria a se casar no dia 1º de outubro de 1960: “Conheci minha mulher naquele pedaço, perto do bar do Celestino. Eu passava com a niveladora para pressionar as pedras, ficava passando naquele pedaço, ela morava ali e eu só olhava”. O casamento foi realizado na Igreja Nossa Senhora de Guadalupe e contou com a presença da banda comandada por seu Américo. “A banda tocou, com carneirinho e tudo”, diz Wilson, se referindo ao carneiro que era mascote da banda e seguia à frente da corporação durante as apresentações.

Em Aparecida, com a esposa e o filho Wilsinho, no colo.

Wilson trabalhou por 30 anos como motorista na empresa de ônibus Andorinha. Quando fala desse período, ele se lembra do nascimento do primeiro filho, Wilsinho, hoje professor na Escola Municipal de Música: “Eu ia para São Paulo de noite. Quando o Wilsinho estava para nascer, na rua Narciso Migliari, eu desci com o ônibus lotado, bati na janela e perguntei se estava tudo bem”.

Os dois ‘Wilson’.

Wilsinho acabou nascendo com a ajuda de uma parteira, enquanto o pai viajava. Em 1968, ele resolveu tentar a sorte em São Paulo, e passou um tempo trabalhando como taxista: “Fui pra lá trabalhar com um DKV. Sempre tinha passageiro, nunca tive problema nenhum. Descia um, subia outro, o dia todo”.

Na estrada, não viu o filho Wilsinho nascer.

Além da Andorinha, Wilson trabalhou também na Viação Garcia. E foi numa viagem para Londrina que aconteceu um incidente que ele ainda guarda na memória. Depois de sair de Bauru com destino a cidade paranaense, por volta das 10 da noite, quando estava para entrar na ponte do rio Cinza, inesperadamente um homem cruzou a pista. Ao frear o Alfa Romeo que dirigia, a manga do eixo quebrou e a roda do ônibus caiu. Ele conseguiu desviar do homem, mas perdeu o controle do ônibus que subiu na calçada e quase caiu no rio: “Ali passei um mau bocado. Pedi para os passageiros saírem devagar, amarramos o ônibus para não cair no rio. Com medo, o cobrador pulou pela janela”. Embora não tivesse culpa no acidente, Wilson perdeu a linha e com três filhos pequenos acabou dispensado pela empresa.

Em sua casa, em Ourinhos, devoção.

Aposentado desde 1987, Wilson continuou trabalhando e comprou seu primeiro caminhão em 2000. Na época, carregava suco de laranja para São Paulo e Rio de Janeiro. Na volta, vinha carregado de polietileno: “Era uma carga muito visada, precisava vir com escolta”.

A experiência como motorista fez com que ele percorresse todo o Brasil.

“Conheço bastante o país. Viajei muito para o sul, puxando carne de Bagé, na divisa com o Uruguai. Mas também conheço Cuiabá, Brasília, Recife”.

Ele diz que sempre se relacionou bem com os colegas de profissão, mas acredita que hoje os motoristas não são tão amigos como antigamente.

“Acordo todos os dias às cinco da manhã”.

Aos 86 anos, ele não pensa em parar de trabalhar: “Eu acordo às 5 horas e chego a viajar duas vezes para Marília no mesmo dia”. Apesar das limitações naturais da idade, Wilson Pereira mantém viva a mesma vontade daquele menino que batia o barro na fazenda e sonhava em ser motorista: “Eu me sinto bem na estrada”.

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