O Cinquentenário de Ourinhos no agitado 1968

Passeata da vitória de Lauro Migliari para a Prefeitura de Ourinhos, em 1968.

No dia em que Ourinhos completou 50 anos, teve início um período de terror na política brasileira: foi naquele 13 de dezembro de 1968 que o presidente Costa e Silva decretou o AI-5 (Ato Institucional Número 5), e a ditadura militar  ganhou contornos de violência e perseguição aos opositores.

Ditadura contra as ideias. | Imagem: VladimirHerzog.org

O mundo também vivia um período tenso com o assassinato de dois importantes líderes políticos: Martin Luther King e Robert Kennedy. Além disso, acontecia a guerra do Vietnã e inúmeras manifestações estudantis nos Estados Unidos e na Europa pediam paz e liberdade para os presos políticos.

O período foi marcado por muita agitação política e cultural, e no Brasil não foi diferente. Enquanto o regime político se fechava, aconteciam movimentos pedindo a volta da democracia e liberdade de expressão. Grupos mais radicais partiram para a luta armada, e a produção cultural do período revelou criadores importantes, com obras que até hoje constituem um legado para arte brasileira, principalmente no teatro, na música e no cinema. Em contrapartida, o governo reagiu promovendo o acirramento da censura, das prisões e da tortura.

Foto aérea de Ourinhos. Ano 1968 ou 1969.

Foi nesse clima que a cidade se preparou para comemorar seus 50 anos. O prefeito era Domingos Camerlingo Caló, que criou uma comissão reunindo pessoas para sugerir e elaborar a agenda de comemorações, que aconteceu durante todo o ano. O presidente da comissão foi o professor Dalton Morato Villas Boas, que criou “comissões especiais” e deu prazo para que cada grupo apresentasse suas sugestões (Comissão de Esportes, de Música, de Teatro, de Pesquisa, Concursos e Conferências e Comissão de Propaganda).

O apresentador Homero Silva entrevista Maria Aurora Gomes de Leão (dona Tata) em programa de TV do Canal 9, em São Paulo, em 1968. À sua direita estão seu marido Hermelino Agnes de Leão, Domingos Camerlingo Caló e o padre Arnaldo Beltrami. À esquerda dois filhos de Hermelino e Tata. Ao fundo, na parede, o brasão de Ourinhos. (Fonte: Blog Memórias Ourinhenses)

Chama a atenção o número de pessoas envolvidas, e a preocupação em incluir intelectuais, professores e artistas da cidade na elaboração da agenda de festividades. Os eventos esportivos foram destacados e os campeonatos futebolísticos reuniram milhares de pessoas no estádio do Clube Atlético Ourinhense.

Para se ter uma ideia da organização e compromisso das pessoas que formaram a Comissão Executiva do Cinquentenário, em fevereiro daquele ano a programação já estava pronta, e já eram divulgadas as atividades que aconteceriam durante todo o ano. Em 1968 a cidade realizou também a segunda Fapi.

Sérgio Nunes, o mais premiado no Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo.

Antenados com o que acontecia no país, um grupo de teatro ourinhense, liderado por Sergio Nunes, encenava textos com cunho político. Naquele ano o GRUTAO – Grupo de Teatro Amador de Ourinhos – venceu o Festival de Teatro Amador do Estado, realizado em Botucatu, com apresentação de Arena contra Zumbi, espetáculo escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com músicas de Edu Lobo.

Jornal Tempo de Avanço informa que governador vai inaugurar a 2ª FAPI.

A participação política dos jovens ourinhenses chama a atenção no período. O antigo Instituto de Educação “Horácio Soares” editava o jornal Tempo de Avanço, publicando textos produzidos pelos próprios alunos, onde eram comuns os questionamentos políticos e comportamentais.

Debutantes de 1962: Maria Cristina Duarte de Souza. Rosely Cury, Marlene Alberini, René Machado Branco, Loanda Castelo Branco, Ciomara Matachana, Neuza Andrade, Marilena Beltrami Costa e Edna Matozinho.

Os jovens ourinhenses  também se divertiam com o cinema, já que o Cine Pedutti havia sido inaugurado no final de 1967, numa época em que essa era uma das poucas opções de lazer na cidade. Ourinhos ainda vivia o tempo dos bailes de debutantes e as fotos das moças estampavam as páginas dos jornais da época.

Cédula do Concurso Cinquentenário, urna do Jaracatiá (Tempo de Avanço 11/08/1968)

Como parte das comemorações foi lançado um concurso para a escolha da Miss Ourinhos, da Mulher Elegância e do Homem Projeção. As cédulas de votação eram distribuídas em alguns pontos de encontro da cidade, como o conhecido Bar Jaracatiá. A mesma cidade que acompanhava as transformações políticas e culturais que aconteciam no mundo, também alimentava a manutenção dos hábitos mais tradicionais da sociedade.

Resultado do Concurso Cinquentenário, quarta apuração

Segundo o Anuário Estatístico do Brasil, em 1968 a cidade possuía 40.489 habitantes, e nesse período muitas ruas ainda eram calçadas com paralelepípedos. Além do cinema, o “footing” na praça Mello Peixoto também era opção de lazer, além de bares como o Jaracatiá que reuniam centenas de pessoas nos finais de semana.

A jovem debutante Guacira Ferrari e o colunista social José Tavares de Miranda, em baile de 1966.

Os bailes de debutantes também marcaram época, e os realizados pelo Grêmio Recreativo de Ourinhos eram os preferidos pelas famílias tradicionais.

Uma tragédia foi registrada no final deste ano: um incêndio destruiu o prédio onde funcionava o Lar das Meninas, que na época era dirigido pela Igreja Metodista e abrigava 64 crianças. Várias famílias ourinhenses abrigaram essas crianças até que um novo prédio fosse construído.

Como Ourinhos não oferecia oportunidades de estudo superior ou trabalho, assim que terminavam o ensino médio, muitos jovens deixavam suas famílias e iam tentar a vida principalmente em São Paulo.

Governador na abertura da 2ª FAPI, em 1968.

Como 1968 também foi ano de eleições municipais, um fato que se repete até hoje marcou o ano do cinquentenário. A abertura da Fapi aconteceu com a visita do Governador Abreu Sodré e outros políticos, e depois disso o interesse da imprensa se voltou para as eleições que se aproximavam. Com isso, a divulgação dos eventos da programação do aniversário da cidade foi deixada para segundo plano.

Anúncio do candidato Aldo Matachana no jornal Tempo de Avanço.

Em 1968 o ourinhense Lauro Migliari foi eleito prefeito em Ourinhos. Na época havia a possibilidade de o partido possuir sublegendas. A Aliança Renovadora Nacional – ARENA tinha três legendas. O MDB, partido da oposição, optou por apresentar apenas candidatos a vereador. Desse modo, a eleição para prefeito foi disputada por dois candidatos arenistas: Lauro Migliari e Aldo Matachana ThoméLauro já havia sido vereador e presidente da Câmara Municipal, e seu vice era o engenheiro Mithuo Minami.

Lauro, de bigode, em foto logo após a divulgação do resultado das eleições de 1968.

Lauro foi o primeiro ourinhense a ser eleito prefeito, mas acabou sendo vítima do período da ditadura. Seu mandato foi cassado no início da gestão pelo Marechal Costa e Silva, ficando apenas alguns meses no poder. Até hoje há especulações sobre os reais motivos que levaram à sua cassação.

Olhando à distância os 50 anos que nos separam da comemoração do cinquentenário de Ourinhos, percebemos que o crescimento da cidade e a mudança de costumes fez desaparecer qualidades importantes para uma comunidade: a participação efetiva dos munícipes na organização de eventos públicos, a valorização das artes e da cultura e um orgulho ufanista de ser ourinhense.

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A série 100 Anos Ourinhos tem o apoio da Fundação Educacional Miguel Mofarrej, mantenedora das Faculdades Integradas de Ourinhos e do Colégio Santo Antonio Objetivo.

Para produzir este texto a equipe do Jornal Biz pesquisou em: Jornal Tempo de Avanço, O Progresso de Ourinhos e Diário da Sorocabana do ano de 1968, disponíveis em www.tertuliana.com.br/docs/acervo, Anuário Estatístico do Brasil e Blog Memórias Ourinhenses (https://ourinhos.blogspot.com.br)

Fotos: Blog Memórias Ourinhenses, Acervo Francisco de Almeida Lopes, Casinha da Memória, Museu Municipal, Acervo de Lauro Migliari.

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