100 Anos Ourinhos: Comerciantes e suas histórias

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Rua Antonio Prado, década de 1950.

Foi em 1908 que o navio Kasato Maru trouxe os primeiros imigrantes japoneses para o Brasil. A bordo, Torazo Canda e sua mulher Shizuno, avós de Simone Galvão Canda Kimura, proprietária da Janda. “Meus avós vieram iludidos, achando que ficariam ricos rapidamente. Foram persuadidos a deixar no Japão um casal de filhos pequenos, de 2 e 5 anos, pois disseram para eles que logo poderiam voltar para buscar as crianças. Foram encaminhados para trabalhar como escravos em lavouras de café, e nunca mais viram os filhos…”

Depois de morar em diversos locais, o casal chegou a Ourinhos na década de 1920 e comprou do coronel Jacinto Ferreira de Sá o terreno onde ainda hoje funciona a Loja Janda, na esquina da rua Expedicionários com a São Paulo.

Janda na década de 1920. Esquina da rua São Paulo com Expedicionários.

Não é difícil imaginar porque os Canda escolheram Ourinhos para instalar sua casa de “secos e molhados” naquele momento. Embora a instalação da estação ferroviária da Estada de Ferro Sorocabana tenha ocorrido em 1908, e com ela tenham surgido pensões e bares na região da avenida Jacinto Ferreira de Sá, foi a partir de 1924 com a instalação da Estada de Ferro São Paulo – Paraná que a relevância de Ourinhos como polo regional de comércio se consolidou. Passageiros e cargas que circulavam de Presidente Prudente e do norte do Paraná em direção a São Paulo ou ao porto de Santos passavam obrigatoriamente pela cidade. O embarque de toneladas de algodão e café e o grande movimento de pessoas aqueceram a economia local.

A fartura econômica motivou o surgimento de um comércio mais sofisticado, como as revendedoras de automóveis. Os desejos de um consumidor com mais dinheiro exigia bem mais do que ofereciam os tradicionais secos e molhados, e o perfil do comércio ourinhense foi se transformando. A rua dos Expedicionários foi se expandindo e adquiriu um perfil próprio, com a instalação de dezenas de lojas de autopeças.

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De volta aos Canda: Nos anos de 1970, o imigrante Torazo passou a administração de seus negócios para o filho Mistugue Canda, e aos poucos sua esposa dona Jandira, que inspirou o nome da loja “Janda”, foi ocupando o espaço com a loja de aviamentos. Ela esteve à frente dos negócios por mais de 20 anos. Porém, em 1981, a filha Simone e o marido Mauro Tadao Kimura assumem o comando da loja, no mesmo local onde o avô imigrante inaugurou o “secos e molhados”.

Mauro: “Janda oferece mais de 2 mil opções diferentes de lã”.

“Nosso lema é sempre ter a mercadoria que o cliente procura. Temos mais de mil cores de linhas de costura, e se a pessoa quiser fazer um cachecol, por exemplo, oferecemos 2 mil opções diferentes de lã”, explica Mauro.

Enquanto os Canda se ocupavam da transição familiar na gerência dos negócios, Valdemar Rodrigues, da Bramerex, abria sua primeira loja. O ano era 1975, e a sociedade era formada por ele, o irmão Ademar e Armando Volpi.

Valdermar e o irmão Ademar, da Bramerex.

Valdemar veio de Itatinga para Ourinhos para “tirar diploma de 4º ano”. O primeiro emprego foi como vendedor nas Pernambucanas, e naquela época o prédio ficava onde hoje está instalada a Farmais, na rua 9 de julho. “A freguesia era na maioria famílias que moravam na zona rural e tinham muitos filhos.

Vista da praça Melo Peixoto, década de 1930.

Era comum eles encostarem a carroça na frente da loja, e compravam a peça inteira de tecido. Era brim azul para fazer calça e tecido xadrez para a camisa. Todos os filhos vestiam roupa igual, não tinha esse negócio de comprar uma cor pra um e diferente pra outro, e a mãe é que costurava para a família”, recorda.

Rua Paraná, década de 1940.

A Associação Comercial em Ourinhos foi criada em 1933, época áurea do comércio na cidade. Hoje o site da entidade indica que são 850 os associados, embora o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) aponte 2033 estabelecimentos comerciais em 2017. O mesmo cadastro indica que em janeiro de 2017 existiam 6.723 empregos formais no comércio de Ourinhos.

Uma pesquisa encomendada pelo Sebrae em 2004 e realizada pelo Instituto Nexus Centro de Informação Estatística mostrou que apenas 11,1% das pessoas que fazem as compras em Ourinhos são de cidades vizinhas.

Fonte: CAGED – Ministério do Trabalho e Emprego

Se podemos afirmar que no passado Ourinhos foi importante polo regional no comércio, hoje é difícil encontrar dados que tragam informações a respeito do perfil do comprador. A Associação Comercial de Ourinhos não dispõe de pesquisas que qualifiquem os compradores ou dados específicos sobre o comércio da cidade.

Seja para atender prioritariamente os moradores da cidade que hoje possui mais de 110 mil habitantes ou aos compradores da região, a verdade é que o comércio se expandiu muito além daquele que existia “pra baixo da linha”, nos primórdios da nossa existência. Hoje, avenidas como a Domingos Camerlingo Caló ou a Luiz Saldanha Rodrigues oferecem variadas opções para compras, e grandes lojas de departamentos e supermercados se instalaram em Ourinhos, espalhando a atividade comercial por diferentes bairros.

Veja abaixo uma seleção de anúncios de jornais de Ourinhos e região a partir da década de 1920.

A atividade comercial é um desafio em qualquer cidade. A coragem e o trabalho de imigrantes como Torazo Canda e outros tantos que vieram de longe e se fixaram em Ourinhos é que fazem da cidade uma referência nesta área.

Vista aérea de Ourinhos, junho 2017. Foto: Robson Silvestre | Arquivo Z Jornal Biz

A série 100 Anos Ourinhos tem o apoio da Fundação Educacional Miguel Mofarrej, mantenedora das Faculdades Integradas de Ourinhos e do Colégio Santo Antonio Objetivo.

Para produzir este texto a equipe do Jornal Biz pesquisou em “Ourinhos/SP: Formação e desenvolvimento de uma economia regional e demais estudos”, organizado por Márcio Rogerio Silveira; “Ourinhos: Memórias de uma cidade paulista”, de Jefferson Del Rios; Jornal Debate – Edição 1284; jornais “A Voz do Povo”, Diário da Sorocabana” e “O progresso de Ourinhos”, disponíveis em  http://tertuliana.com.br/docs/acervo. Foram entrevistados Simone Galvão Canda Kimura, Mauro Tadao Kimura  e Valdemar Rodrigues. Fotos antigas Acervo Francisco de Almeida Lopes, Museu Municipal e Família Canda.